Coluna Cenários de 21 de agosto 2009
Dom, 30 de Agosto de 2009 10:46
Paulo
Dificuldade de governar
Todos os dias somos bombardeados por informações sobre desvio de recursos públicos que causam indignação e certo torpor. Entretanto não podemos nivelar e ter por parâmetro o que uma parcela de políticos é capaz de realizar, uma sociedade baseada na corrupção não sobrevive, extingue-se. Há os que bem gerenciam o que é da coletividade e estes devem prevalecer. Bertolt Brecht, em seu poema “Dificuldade de governar” ironiza a estratégia de manutenção do poder sob quaisquer condições.
Todos os dias os ministros dizem ao povo
Como é difícil governar. Sem os ministros
O trigo cresceria para baixo em vez de crescer para cima.
Nem um pedaço de carvão sairia das minas
Se o chanceler não fosse tão inteligente. Sem o ministro da Propaganda
Mais nenhuma mulher poderia ficar grávida. Sem o ministro da Guerra
Nunca mais haveria guerra. E atrever-se ia a nascer o sol
Sem a autorização do Führer?
Não é nada provável e se o fosse
Ele nasceria por certo fora do lugar.
E também difícil, ao que nos é dito,
Dirigir uma fábrica. Sem o patrão
As paredes cairiam e as máquinas encher-se-iam de ferrugem.
Se algures fizessem um arado
Ele nunca chegaria ao campo sem
As palavras avisadas do industrial aos camponeses: quem,
De outro modo, poderia falar-lhes na existência de arados? E que
Seria da propriedade rural sem o proprietário rural?
Não há dúvida nenhuma que se semearia centeio onde já havia batatas.
Se governar fosse fácil
Não havia necessidade de espíritos tão esclarecidos como o do Führer.
Se o operário soubesse usar a sua máquina
E se o camponês soubesse distinguir um campo de uma forma para tortas
Não haveria necessidade de patrões nem de proprietários.
E só porque toda a gente é tão estúpida
Que há necessidade de alguns tão inteligentes.
Ou será que
Governar só é assim tão difícil porque a exploração e a mentira
São coisas que custam a aprender?
As constantes denúncias de abuso de poder com a utilização de influência política para nomear apadrinhados - principalmente parentes e amigos - em cargos públicos é uma herança dos tempos do coronelismo político que foi reproduzida em todas as esferas do poder público (seja estadual, municipal e federal). Atos que burlam o princípio constitucional de direitos iguais de ingresso no serviço público ou formas disfarçadas de legalidade são visíveis. Não são necessárias grandes pesquisas para saber como estão estabelecidas, basta buscar a história de cada ingresso que se pode compreender o porquê de ter obtido tal cargo. Essa prática é recorrente não somente na esfera pública, entretanto é na esfera pública que o princípio da impessoalidade deve ser preservado e não se pode compactuar com tais práticas. Importante ter presente nessa relação que há o que corrompe e há o que se corrompe, que aceita e se submete a essa prática embasado no surrado “jeitinho” em que vale o ter, não importando o como, tendo por princípio “os interesses” pessoais em detrimento da coletividade.
Vemos milhões, ou melhor, bilhões de reais sendo desviados dos cofres públicos e milhões, ou melhor, bilhões de pessoas vivendo em condições de miserabilidade em todos os recantos desta terra que é nosso lar. Realidade não tão distante de nossos olhos, embora seja preferível não ver e continuar culpando hipocritamente a cada pessoa por não ter obtido sucesso, como se isso não fosse uma questão de escolhas sociais e econômicas da sociedade. “Para quem tem uma boa posição social, / falar de comida é coisa baixa. / É compreensível: eles já comeram” Bertoldt Brecht